Pra não dizer que não falaremos das flores


SATYRIANAS 2020

2020 será marcado para sempre como um dos anos mais difíceis que o Brasil já teve de enfrentar em sua história. A polarização política, que teve uma escalada impressionante nos últimos anos, foi potencializada quando mergulhamos em uma outra tragédia, igualmente gigantesca, logo no início do ano: a pandemia do covid-19.

O país dividido sobre todos os assuntos, também ficou dividido na questão da pandemia, e chegou assim a uma das maiores taxas de mortalidade da pandemia no mundo. Ao invés de nos unirmos para enfrentar essa catástrofe, vimos toda e qualquer questão pública transformar-se em um campo de batalha patético. O uso de máscaras, o aborto, uma vacina, a proteção das nossas florestas, a liberdade e o diálogo respeitoso deixaram de ser elementos fundamentais de nossa cidadania para se tornarem temas de debates acalorados, acusações e ódios mortais. Nossa democracia também está entubada, na UTI, respirando através de aparelhos.

Nós, dos Satyros, decidimos, logo que a pandemia chegou ao país, que não poderíamos parar. Não era possível que, num dos momentos mais terríveis de nossa história, o teatro deixasse de existir. Justamente no momento em que a sociedade mais precisava de artistas para expresar o terror em que estávamos mergulhados. Fomos aprendendo, através dos días de isolamento, a construir um teatro nosso, que nos permitisse dialogar com nosso público, mesmo em isolamento. Através da tentativa e erro, fomos construindo um novo modo de fazer teatro. Assim, nasceu o nosso teatro digital, a resposta tecnológica para nosso desespero enquanto artistas.

Desde que iniciamos essa empreitada eletrônica, muitas descobertas aconteceram, muitas portas se abriram. Descobrimos que o tempo e o espaço eram relativos para o teatro digital. Pudemos estabelecer contatos com artistas de todos os continentes, em um processo inédito. Descobrimos, como coletivo, que poderíamos ir além do que esperavamos de nós mesmos. Desbravamos novas fronteiras, e ao desbravá-las, encontramos flores. Essas flores surgiram em nosso caminho em forma de artistas e público de lugares distantes da África, da Europa, da Ásia, da Oceania e das Américas.

A Satyrianas deste ano nasce assim, de forma absolutamente surpreendente. Ela supera o isolamento imposto pela pandemia através das posibilidades do mundo digital. Vai falar das dores que temos carregado isoladamente em nossos quartos, em nossos apartamentos e casas. Mas também vai falar das flores da esperança, do diálogo, da arte e da beleza. Aqui e agora, estamos vivos, e resistindo para construir um mundo melhor para aqueles que vierem depois de nós.

E assim, agradecemos aos artistas e ao público de todos os lugares deste planeta que se uniram a nós para celebrar as flores que sempre nascem para provar nossa força e resistência. Esta Satyrianas será o nosso testemunho de um tempo que mudará para sempre a forma de vida da humanidade.


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