Um Homem – Ato 5

Um Homem – Ato 5

De Rubens Rewald e Thaís de Almeida Prado

Direção Rubens Rewald

Com Thaís de Almeida Prado

Dramamix, SP Escola de Teatro

A escritura de um espetáculo exige trazer ao corpo da dramaturgia a qualidade de suas escolhas. Nem sempre os dramaturgos se dedicam ao invento de processos e linguagens, e essa é mesmo uma escolha pessoal. No entanto, quando sim, ganha o espetáculo em invento e qualidade. Por outro lado, o contemporâneo tem explodido os artifícios tradicionais da escrita, e descobrir o que em cena é dramaturgia original, ou descoberta durante os ensaios, ou mesmo criações dos atores, tem se tornado um desafio e tanto. O fato é importar menos se a cena fora, desde sempre, idealizada em estética e verbo. Ao menos quando o dramaturgo não busca imediato reconhecimento. Se por necessidade de afirmação, corre o risco do dramaturgo se expor em demasia. Se por premissa ao entendimento da escrita, algo se confirma inquieto ao próprio processo, e portanto mais provocativo. Rubens é desses dramaturgos que se entregam à escrita para lhe trazer maior complexidade. Como nesse quinto ato de um possível espetáculo chamado O Homem; seus personagens são lineares ao naturalismo desenhados pouco a pouco ao espectador. Não significa com isso serem previsíveis, e é aí que a relação entre quem se revela e a história qual ocupa se confunde em estratégia narrativa. A consequência é a instauração de um processo entrópico entre conflito e personagem com modulações variáveis ora a um, ora a outro. Dessa vez, o Ato 5 amplia ainda mais a complexidade dessa entropia atribuindo à personagem a qualidade de uma lucidez sobre si mesma própria de quem observa à distância. Não são apenas descrições, mas análises conclusivas e determinantes ao contexto em que está. Ao atribuir essa angulação de percepção exterior, também problematiza se quem observa é a personagem ou a própria atriz, em uma espécie de julgamento crítico narrativo. É fundamental perceber aqui que Thaís é uma das criadoras do projeto. Então é plausível ser ela mesma quem olha a ficção de uma personagem que talvez seja sua auto-ficção. Por trazer uma linearidade inversa, retornado a narrativa a cada parte do espetáculo, O Homem – Ato 5 sustenta a dimensão de ser sobretudo uma investigação sobre o Sujeito contemporâneo, só verificável, em última instância, ao ter a trajetória traduzida a partir do reconhecimento de seu observador, dessa mulher. O que pode parecer uma narrativa simples, por conseguinte, exige a radicalidade de uma escritura dramática aonde a dramaturgia é matéria e não apenas fim. Esperando para ver logo O Homem concluído como espetáculo e por isso como ideia, assistir todos os seus pedaços reunidos. O teatro precisa passar pela potência disso.

por Ruy Filho


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