O Hipopótamo de Escobar 

O Hipopótamo de Escobar 

O Hipopótamo de Escobar 

De Dione Carlos

Direção Dawton Abranches

Com Alessandro Marba

Dramamix, SP Escola de Teatro

A linguagem do teatro se estrutura pelas camadas quais conquista. Quanto mais, melhor, pois mais inquieto, possibilitando aos espectadores que se reconheçam de alguma maneira, seja na mais direta, seja na mais simbólica. Para tanto, é preciso a cena ser capaz de comportar a pluralidade interpretativa sem atribuir-lhes hierarquias; significa que qualificar as camadas acabará menosprezando ou supervalorizando quem se identificou com essa ou aquela. Afinal, o que seria mais plausível ao teatro atual: o simbólico, por suas capacidades em atribuir figuras de linguagens e interpretações diversas; o literal, na potência de um encontro objetivo ao pretendido? Difícil responder tal questão, posto não se regrar por uma condição meramente, e sim pelos interesses do artista em como apresentar seus pensamentos. Cabem nesse querer, o estético, o retórico, o físico, o prolixo e suas muitas variações e cruzamentos. É por isso que um artista interessa ao seu tempo sobretudo pelas escolhas, e não apenas pelo que alcança de resultado. Dito isso, é preciso apresentar Dione Carlos como uma curva na dramaturgia brasileira. Sua escrita conquista a capacidade em atingir alcance e escolha com iguais ousadias. A narrativa curta de O Hipopótamo de Escobar, porém precisa e suficiente, apresenta um homem que observa o hipopótamo, e nesse gesto tudo muda. É por si metafórica o suficiente para muitos devaneios do espectador. Mas o animal é representado em cena por um ator branco, em roupa camuflada típica de caça, rifle em mãos, extremamente próximo a seu observador. Quase capaz de tocá-lo. Ou atingi-lo, . Em traje turístico caricato de caçador ou de guerrilheiro colonizador militarizado, é ele quem domina a ambiência atribuindo-lhe perigo concreto. Como em uma África onde o homem natural é historicamente domesticado à força. Ainda mais… Aquele que se banha em espuma, o faz ao estilo, comportamento e fala estereotipados do macho latino. Um representação, até certo ponto, midiática e pop de como sempre é representado. Portanto é também aquele consequente ao rascunho de uma existência que só pode sobreviver ao se afirmar alfa de uma ninhada forjada pelos patrões. Dione não encerra aí. O homem descobre a potência de ser mais do que apenas o macho, ou mais outro macho, e recusa-se a cumprir esse papel. Existe uma consciência que o atinge, quando diante ao hipopótamo: aquela que lhe convida a ser perigosamente gigante e sedutor. E segue a ela. Transforma-se. Meio-homem, meio animal, rifle em mãos, descobre a condição de uma resistência que age a partir do próprio corpo reinventado, de seu corpo latino, de seu corpo resposta, seu corpo e negritude. Está pronto. Agora é ele um hipopótamo do narcotraficante Pablo Escobar, e isso traz ao espetáculo ainda uma última possibilidade: a da contramão, do desvio, do confronto aos sistemas e suas ações programáticas aos corpos. Nem o hipopótamo é apenas quem é, ao andar pelas ruas, pois é um símbolo concreto de um inconsciente adormecido. E nem é ele apenas o homem-bicho de Ionesco. No texto de Dione, o animal existe como representação física de quão grandiosa pode ser a consciência ao Indivíduo, ao se perceber um risco ao mundo, diante sua liberdade. Homens são perigosamente animais descontrolados. E parece que a sociedade ainda não se atentou devidamente disso. Alguns, ao descobrirem, fogem às florestas e lagos; outros carregam armas. Dione, por fim, reafirma sua capacidade de utilizar as palavras como armas incendiárias às florestas. Floresta, estas, em suas condições gigantescas e profundas de metáforas.

por Ruy Filho


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