O Estranho Campo Magnético de Saturno 

O Estranho Campo Magnético de Saturno 

O Estranho Campo Magnético de Saturno 

Autoria e Direção Celso Cruz

com Carlos Rahal e Fernanda Mammana

Dramamix, SP Escola de Teatro

Como lidar com a ausência de alguém, quando a ausência é na realidade a desconstrução desse alguém? Primeiro é preciso atuar sobre os rascunhos que tornam o outro específico, próprio e também íntimo. Depois, compreender o que nesses traços desapareceram, para suprir àquilo que lhe conferia identidade com outras possibilidades de perceber-lhe. Implica ainda um gesto de aceitação do outro por aquilo estabilizado na memória de quem o observa. O outro é apenas a lembrança dele mesmo. Portanto, aquele que se ausenta, que tem sua identidade destruída pela demência, como propõe o texto, tornando-se incapaz de construir as mesmas memórias e com isso erguer um cotidiano comum, é a materialização da ausência na própria identidade. É dolorosamente real, física, palpável, explícita. E rigorosamente solitária e íntima. Uma ausência presente. Dela surge uma espécie de preparação à morte. Ou seja, a ausência em si, quando nem mais a presença resta ao convívio. Tornar tanto palavras para serem ditas no palco, com o paradoxo de que, ao serem materializadas, produzem o efeito contrário, sua presentificação, é um desafio mais poético do que propriamente dramático. o teatro, por ser o presente em acontecimento, aceita o fingir a ausência como possível; as palavras, por sua vez, se somam, uma após outra, criando o corpo, a memória, o ser. É preciso lidar com essas linhas de forças, portanto: dar cada vez mais realidade àquilo que precisa convencer não mais existir. A poética qualifica ao espectador outra dimensão às palavras, que passam a atuar na fala por suas capacidades em serem representações do intangível e não mais do objeto tratado. Dessa maneira, aquele que se ausenta em demência e morte não é necessariamente o personagem em cena, mas a sugestão da representação de uma possível existência um dia. Um existir que é lembrança e figuração. Um existir principalmente poético. Celso Cruz escreve a poética desse alguém, que é específico e qualquer outro, acumulando palavras de um cotidiano para ampliar ao espectador o reconhecimento desse alguém pelos afetos que essas são capazes de provocar. Ao fim, a certeza de que o outro permanece pela afetuosidade que construiu ao existir, enquanto a ausência de reinventa ao afeto de sua saudade, cada dia mais solitária e pessoal.

por Ruy Filho


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