O Amor é um Processo 

O Amor é um Processo 

O Amor é um Processo 

De Fabiano Brandi Torres

Direção Marcelo Várzea

Com Martha Meola e Lucas Romano

Dramamix, SP Escola de Teatro

Existe uma tentativa que persiste na dramaturgia contemporânea: a de instituir por meio da voz do autor uma visão específica sobre um determinado assunto. Quase sempre, porém, a tentativa esbarra no perigo de ser uma mais a abordá-lo, gerando certo cansaço naquilo que parece demasiadamente repetitivo. Assim, cada época possui seus argumentos, seus temas, seus dizeres, seus contradizeres. Dentre o infinito de possibilidades, alguns se confundem com eixos transversais que olham ao Indivíduo por premissas próprias e estruturas simbólicas reconhecíveis e capazes de atuar em qualquer campo de argumentação. Por isso é necessário descobrir se o tema é ao teatro um argumento ou eixo pelo qual se desdobrarão as ideias. Amor e Morte são dois dos eixos mais recorrentes desde sempre e servem objetiva e metaforicamente aos argumentos mais amplos. Ao tratar o amor, como se propõe o espetáculo, exige-se da dramaturgia a compreensão de ser um eixo para como o espetáculo atingir outros discursos, idéias, sentidos, sensações, percepções, enfim, conceitos sobre o Indivíduo e seus contextos, sejam estes históricos, culturais, simbólicos, políticos, filosóficos, sociais, antropológicos, religiosos etc. Sem ter o amor como eixo, limitando-o a existir como tema, a dramaturgia arrisca ser pueril e limitada a mais uma análise. O problema em si, como demonstra O Amor é um Processo, é superar a pessoalização do argumento (que por ser eixo é mais plural), uma vez que a comparação é inevitável aos trazidos pelo espectador. Fabiano opta por falar sobre o amor, dando-lhe tons explicativos, como quem defende os próprios argumentos, retirando a única saída desse labirinto: levar o espectador a experienciar sua argumentação por meio de um convívio estético poético, sem utilizar-se da literalidade de dizê-lo. É uma tentativa trabalhosa, em sua sinceridade, oferecer ao espectador o discurso por meio de personagens, pois tal escolha exige-lhe incluir a contradição conflituosa àquilo defendido. Como não tomar partido ao escrever? Como não ser a peça a confirmação prática da escolha prévia de seus argumentos? Como expandir pela escrita a qualidade dramática, colocando-se ausente e autoral, simultaneamente? Essas são algumas questões fundamentais à dramaturgia contemporânea, e que exigem também a criação de estruturas dramáticas e reinvenção da palavra enquanto discurso e presença retórica. Nas últimas décadas, dizer se tornou pouco às palavras. O Amor é um Processo ainda se aprisiona pelo dizer, por trazer o explicativo no dizer, por ilustrar o querer dizer algo. O teatro, por conseguinte, realiza-se conduzido ao espectador em sua condição de argumento (estratégia) e não como eixo (experiência). Se o espectador concordar com o argumento, nada será modificado; se não, ainda menos. O teatro precisa sempre estar atento aos perigos de sua afirmação, e os dramaturgos, sobretudo, das certezas de suas certezas.

por Ruy Filho


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