Ninguém Abandona o Paraíso pela Porta da Frente

Ninguém Abandona o Paraíso pela Porta da Frente

de Helena Cerello

direção Paula Cohen

com Helena Cerello e Lu Vitti

Dramamix, SP Escola de Teatro

Contar uma história significa algo mais do que construir uma narrativa. No ato de contar, escolhe-se as palavras, as nuances, as qualidades e conflitos; escolhe-se como se quer ser ouvido, existir ao outro. Nesse ímpeto de uma relação que se instaura pelo dizer e ouvir, o indivíduo sustenta sobre o argumento de quem nele próprio deve ser reconhecido. Assim, inventa-se outro de si mesmo ao narrar algo, reinventa-se diferente do que se é. Ou, ainda, amplia a qualidade da relação para ser aquele que se verdadeiramente é. Qual a ficção, portanto, cabe ao indivíduo depende da potência estabelecida entre os dois envolvidos. Qual a realidade, também. Dizer se torna um desafio muito mais profundo ao indivíduo do quem o recebe, pois é pela palavra que se escondem as palavras não escolhidas, escondidas, disfarçadas, tanto quanto uma atuação usa-se da cena para dar o mesmo à atriz. Importa sobretudo, então, ao ouvir, encontrar aquilo que os olhos são capazes de contar. Seja na fala de alguém, de um amigo, de um amante, de um ator. Mas como encontrar os olhos de um escritor se as entrelinhas desafiam o leitor a fugir ao seu próprio imaginário? Helena Cerello se ocupa do livro, da fala, da cena não apenas como quem quer algo, mas como quem busca existir nos entraves que lhe exigem o existir como narrativa à história. Cada minuto, cada instante, gesto, pausa são magnificamente maduros. Uma atriz magnífica que sustenta a ela mesma como sua persona e não personagem. No brilho intenso de um olhar que está voltado a si, Helena pede um pouco de afeto e nos convida ao convívio com seus escuros. Nem importam se reais ou não; ela importa. Ela artista, ela escritora, ela atriz, ela humana. É comum fecharmos um livro amigo do escritor ou personagens. É comum deixarmos o teatro envolvidos com o elenco. Mas é especial quando sentimos a vontade de olhar nos olhos da atriz e agradecer pelos minutos juntos. Helena faz da sua busca o convite para olharmos a nossa. E descubro, ao fim, o quão meus olhos se esqueceram de escrever ao mundo minhas histórias. A isso chamo de capacidade de um artista em nos fazer apaixonados pela vida outra vez.

por Ruy Filho


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