Dolores

Dolores

Dolores 

Texto e Direção Marcelo Varzea

Com Lara Cordula

Dramamix, SP Escola de Teatro

A criação de uma personagem implica em resistir a muitas tentações. Atrizes sabem bem sobre isso. Aos dramaturgos, porém, tudo se complica, pois determinar o quão cabe em rascunho e apresentação é um risco meticuloso e nada previsível. Ao oferecer demais, torna-a mero exercício sobre a persona; se pouco, superficializa sua relevância. Mas a medida de uma personagem, em verdade, só pode ser compreendida ao ter sua história apresentada ao espectador. Para tanto, as regras são diversas. E inúteis. O espectador é amplo o suficiente para que se desista de imediato de todo e qualquer desenho simplista. Quanto mais próprio a quem escrever a personagem, quanto mais singular e particular aos seus intentos, melhor. A conseqüência é o movimento em busca de empatia, portanto. E isso depende da qualidade de sua apresentação, não apenas de sua escritura. É nesse instante, o último nesse longo processo que vai da criação ao palco, que Lara Cordula assume a responsabilidade de ser o que está em palavras, sem nenhum pudor. Confunde ao espectador quem é quem, abrindo espaço para uma aproximação direta com ambas de forma cúmplice e provocativa. Olha os olhos como quem indaga se continua junto a trajetória, como quem desafia a seguí-la. Por muitos momentos, deixa em suspenso o risco de uma ou outra decisão. Seguí-la ou não, continuar ou não são, sobretudo, respostas a si mesmo, e não apenas ao espetáculo. No entanto, como desistir diante de tamanha sedução? A maneira com que lê e amplia a personagem ao real, atribuindo às frases curtas e secas o direcionamento certeiro de serem breves provocações às expectativas, conduz a narrativa a se valer de qualidades épicas. Como é possível tudo isso existir a alguém, tantos fatos, tantos desvios, tantos reinventos? O que poderia se limitar a ser uma existência trágica é superada pela articulação meticulosa de cada adjetivo, ampliando a perspectiva do acontecimento a partir da personagem e não dos conflitos. Por isso, o espectador ri com leveza diante da trágica incapacidade de acessar a felicidade por mais do que um instante ou uma trepada. Lara domina a qualidade de induzir tanto o riso e o silêncio, todavia não pela piada feita, e sim pela possibilidade de haver ali uma piada a ser descoberta, e que muitas vezes não vem. É a exata movimentação entre o possível trágico e o possível cômico, entre a solidão e a cumplicidade, entre o existir de um texto e das memórias que atacam silenciosamente o público, que torna o texto de Marcelo uma pesquisa que supera ser a dramaturgia de alguém, a construção de uma personagem, o estudo para uma atriz. Aos poucos, revela-se também a possibilidade de ser a redescoberta do humano no espectador, naquilo que lhe é mais íntimo e perigoso: suas histórias. Dolores, ainda que pelo formato próprio dos monólogos, povoa o palco com outras tantas figuras mais, surgidas nas muitas imaginações daqueles que com ela seguiram sua épica trajetória em busca de alguma redenção. Basta saber se o espectador, ao menos, conseguiu encontrar a sua.

por Ruy Filho


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