Apresentação

A Satyrianas da Phedra

A Praça Roosevelt, em dezembro de 2000, era um dos lugares mais violentos da cidade de São Paulo. Tráfico de drogas, prostituição e criminalidade eram sinônimos para a Praça. Muitos prédios no entorno estavam desocupados, em avançado estado de degradação, ao passo que outros funcionavam como hotéis de alta rotatividade. Foi em um dos prédios abandonados, que tinha servido como hotel para a prostituição de travestis, onde Os Satyros havia acabado de se instalar.
A comunidade da Roosevelt olhava para nós de forma estranha, éramos literalmente suspeitos, aos olhos deles. Por que um teatro aqui? – eles pensavam. E a desconfiança não era apenas deles, mas da imprensa e do público também. Aquele início foi de grandes dificuldades, poucos espectadores, assaltos, suicídios e assassinatos que chegamos a testemunhar.
Foi então que surgiu Phedra de Córdoba em nossas vidas. Estrela da noite underground, já com mais de 60 anos de idade, mantinha um brilho intenso nos olhos, apesar da enorme dificuldade de sobrevivência. E ela nos apresentou à comunidade da Praça. As travestis e as transexuais jovens, que viviam e trabalhavam na região, tinham Phedra como um ícone, uma sobrevivente dos ataques diários. Foi a partir de Phedra que Os Satyros finalmente puderam ser aceitos na região, e a história daquela praça pôde ser transformada. Naquele momento, Phedra fez pelo teatro mais do que qualquer órgão público poderia ter feito. Ela foi o verdadeiro motor da revitalização da Praça, ao apresentar o teatro ao microcosmo desconhecido e renegado que ali existia.
A partir de então, Phedra passou a ser uma Satyriana, até o dia de sua morte, em abril passado. Foram 15 anos de convivência rica, dura, apaixonada e, acima de tudo, cheia de arte. Sobretudo, Phedra amava o teatro. E isso a impulsionava a se arriscar em cenas ousadas até o último dia de sua vida. Ela não tinha medo da morte, como dizia a canção de Gilberto Gil, na cena marcante de “Não Morrerás”, em que se mostrava nua e vulnerável para o público. Mas tinha medo, isso sim, de não poder estar nos palcos.
Phedra assumiu sua condição de transgênero em plena ditadura militar, em uma ousadia que só hoje pode ser entendida plenamente. Era cubana, transexual, cortesã, mulher, filha do candomblé. Sofreu com o preconceito deste país careta durante toda a sua vida; transfobia, xenofobia, gerontofobia, machismo, intolerância religiosa. Mas nunca se submeteu a nenhum de seus detratores. Impunha-se com dignidade e uma ponta de loucura. Sem familiares no Brasil, Os Satyros eram sua família. E Phedra era, como ela mesma se definiu, a “diva automática” eterna do grupo.
Dedicamos esta Satyrianas à Phedra e a todos aqueles que, de alguma forma, enfrentam com dignidade os ataques de intolerância que estão transformando nosso País em um campo minado. E sendo esta a Satyrianas da Phedra, o evento deste ano, mais do que nunca, abraçará os diferentes, todos aqueles que são humilhados pela sociedade intolerante: os estrangeiros, os afrodescendentes, os transgêneros, os adeptos de religiões minoritárias, as mulheres, os idosos.
Em um momento tão difícil da história do nosso País, ainda sofrendo com a perda de Phedra, Os Satyros convidam todos a celebrar a vida na sua diversidade, na sua paixão pela arte, na dignidade e no respeito! E que a nossa diva automática nos guie para esta festa! Viva a Satyrianas da Phedra!


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