A Pantera 

A Pantera 

A Pantera 

De Priscila Gontijo

Direção Maria Fanchin

Com Fernanda D’Umbra

Dramamix, SP Escola de Teatro

O quanto a humanidade se distanciou de sua origem selvagem? E o que isso resulta? Convencidos de ser tudo aquilo primitivo e natural, desde instintos até os anseios, um estado menor ao humano, construiu-se o percurso civilizatório como algo indiscutivelmente evolutivo. Evoluir em seu sentido de melhora, de superação. Por conseguinte, a civilização, tal como a conhecemos, é tanto quanto melhor e superior a qualquer outra possibilidade. É difícil rebater esse argumento, afinal, alguém duvida estarmos melhores e mais seguros diante o próprio viver do que em sociedade? O dilema está em compreender a complexidade de como a sociabilização é conduzida para sustentar a civilização. Assim, existir em sociedade significa adequar-se a ela, por meio de seus mecanismos de participatividade e pertencimento. Regras e leis organizam o convívio a partir de estruturas que, por delimitar os próprios mecanismos, são compreendidas como comuns. O que e como são, assim o são para todos. Cabe ainda ao existir outros tantos aspectos mais, e esses se confundem não mais pela inclusão a partir dos limites e padronizações, mas pelas especificidades inconscientes que regras e leis estabelecem ordem ao todo. A sociedade, então, serve de espécie de laboratório aos padrões, e confrontá-los é suspender-lhe o poder de organização. Ou seja, instituir o caos. Para impedir que isso ocorra, a sociabilização precisa ser impositiva e não negociável, protegendo o desenvolvimento civilizatório para que continue a evolução planejada. Voltemos um pouco ao problema… Mas e os instintos e anseios? É necessário eliminá-los. Cria-se uma demanda de desejo, estabelece-se o medo às próprias escolhas, e assim o Sujeito permanece aprisionado em sua incerteza. Reagir, discordar ou duvidar do como existir em sociedade é atacar o projeto civilizatório sem o qual o Sujeito não passaria de um selvagem. E quem quer ser selvagem? É no arcabouço da projeção do selvagem insistente, por meio de uma pantera que apenas a personagem enxerga, que a mulher do espetáculo dialoga com suas duas faces: racional e instintiva. No dia de sua alta, ainda no interior do centro psiquiátrico, a mulher, então dividida em duas partes e personas, enfrenta o dilema apontado antes. Aceitar sua sociabilização, dentro do processo civilizatório dado, implicará sua inclusão e liberdade; reagir, no entanto, exige-lhe não pertencer e participar, e só lhe resta ficar onde está. Enquanto os médicos não chegam e não chegam, não há como o espectador desvendar se também sua alta é um desdobramento projetado, ou se de fato é correta. Por não chegarem, a própria mulher duvida, enquanto lhe permanece a pantera real. Seria-lhe o real mais inverossímil que o imaginado? A quantidade de perguntas desse tipo seria deliciosamente inesgotável, não fosse a interpretação magistral de Fernanda D’Umbra. Desenhando cada passagem do íntimo da mulher à presença da pantera, da euforia pelo auto-convencimento de que será capaz de voltar a ser pertencer à desconfiança trazida por um medo de sua segurança que lhe anula a saída, Fernanda cria instantes de silêncios profundos com poucos segundos suficiente para instituir o desespero de quem não consegue mais se encontrar nem como selvagem nem como civilizado. É como se apenas o seu corpo fosse a materialidade de uma realidade ainda compreensível. E é ele, desnudo, que se funde à pantera na tentativa de reunir as partes e construir de volta o uno. Porém o uno exige ampliar também as próprias decisões, o que significa reagir. E quando se reage, não é mais plausível aceitar a sociedade e o projeto civilizatório atual como algo simplesmente natural. O selvagem supera o Sujeito. E o Sujeito se livra de precisar ser apenas alguém.

por Ruy Filho


Sobre o Autor



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Top ↑
  • Twitter


  • Facebook