A Chuva e o Bom Tempo

A Chuva e o Bom Tempo

de Flavio Goldman

direção Aimar Labaki

com Maria Eugênia de Domenico e Noemi Marinho

Dramamix, SP Escola de Teatro

Do lado de fora, a garoa fina quase desapareceu, mas insiste, enquanto aguardamos o início da peça. Dentro, o calor da sala fechada se estende lentamente ao público, e alguns retiram os casacos. As atrizes permanecem sentadas em suas cadeiras, únicas companhias ao palco vazio. O primeiro gesto dá o tom ao que assistiremos. Jornais erguidos, escondendo os rostos, estampam notícias na Folha de S. Paulo sobre a onda conservadora. Mas não é sobre isso que conversam. Não diretamente. É sobre o tempo. E por não ser sobre o clima, o termo admite, pouco a pouco, expandir as falas às memórias e ao futuro. Flavio Goldman não precisa de muitos minutos para construir uma dramaturgia cirúrgica e a parente brevidade da cena não revela a necessidade de algo mais. Nada lhe falta. O querer mais é do espectador diante aos jogos de palavras, aos poucos transferidos aos olhos, aos corpos, às presenças. Até onde iriam sem conseguir quebrar suas regras de não abordar nada além do tempo? Como resistir ao instinto de metaforizar os sentimentos e as urgências? A escolha pelo minimalismo dado ao cotidiano da direção de Aimar Labaki ajuda a tornar o vazio que circunda as atrizes, Maria Eugênia de Domenico e Noemi Marinho com a precisão de um simbolismo singular. O escolher não dizer ficcional de fato exige o não representar real. Todavia, é com Noemi que a ausência, o invisível surge com delicadeza e discurso. Ao levantar, ao trazer a cena mais para próximo do espectador, instaura a melancolia como argumento último ao indivíduo que se calou. Seria essa a condição de resistência ao silêncio? Seria sim o silêncio cancerígeno, ao contrário do que prega a outra personagem? Quando a porta se abre, o calor dos refletores revela-se artificial. A noite segue mais escura e fria, agora sem garoa, os ruídos se confundem em excesso até se tornarem silenciosas antíteses. Nada parece ter mudado. O tempo é o mesmo. E devemos seguir sabendo que talvez continue assim ou que pode vir a piorar.

por Ruy Filho


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